Denúncia premiada

*Por Paulo Gomes

Identificar fraudes ou ações ilícitas dentro de uma empresa, seja ela pública ou privada, é uma das missões mais complexas de gestão em uma corporação. As áreas de auditoria, controle e compliance atuam para prevenir e mitigar riscos e já começam a utilizar de tecnologias como inteligência artificial a fim de coibir descaminhos.

Os avanços nos últimos anos são inquestionáveis, mas a luta é eterna e precisa contar constantemente com novos aliados que atuem em prol da ética.

Além de investimentos em robótica e no fortalecimento das estruturas de controles é essencial o apoio de quem faz parte da empresa. Refiro-me ao próprio funcionário que, muitas vezes, divide uma baia com um potencial fraudador.

O ato de delatar traz consigo diversas barreiras psicológicas, desde sentimentos de culpa com rótulos de ‘traidor’, até um temor de retaliação, vingança ou perda do emprego. Para despertar o apoio de um delator interno é preciso criar estímulos capazes de gerar segurança, eliminando receios ou amarras.

É nesse contexto que surge o conceito do que poderíamos chamar de ‘Canal de Denúncia Premiada’; uma recompensa em nome da ética. Não posso garantir que o que proponho aqui seja uma ideia inédita no mercado brasileiro, mas confesso que em quase 40 anos imersos em auditoria ainda não presenciei um exemplo parecido no país, implantado com eficácia em uma organização.

Em um mundo de sonhos, a busca purista pela ética, por si só, já seria um estímulo para que as pessoas delatassem más condutas de colegas. Mas sabemos que uma política de incentivo traz resultados significativos em diversas áreas, e não é de hoje.
A famosa recompensa ‘Wanted’ (procurado) tão emblemática nos filmes do gênero Velho Oeste, pode ser um dos exemplos mais clássicos dessa prática que contribuía e ainda é usada para auxiliar na captura de criminosos.

No Brasil, como em quase todos os cantos do planeta, também temos esse artificio, inclusive com o apoio da lei 13.608/18, sancionada ano passado, que obriga todos os organismo públicos a oferecerem canais de disque-denúncia. Ela regulamenta a questão do benefício financeiro a quem contribuir de forma concreta com informações úteis e verídicas.

De volta ao ambiente corporativo, outra analogia válida e de sucesso é da Colaboração Premiada e dos Acordos de Leniência.

Tanto no primeiro caso, que envolve a cooperação de executivos; como no segundo, que estimula o apoio da empresa investigada, os resultados obtidos em operações envolvendo a Lava Jato e cases pós Lei Anticorrupção, são impressionantes: foram cerca de R$ 14 bilhões de recursos resgatados segundo dados divulgados, no final do semestre passado, pela a Força Tarefa de Curitiba – responsável por coordenar as investigações do maior esquema de corrupção da história do país.

Mas há uma diferença primordial nessa proposta de se criar um Canal de Denúncia Premiada: quem colabora não faz parte da fraude ou do desvio de conduta que ocorre na empresa. Seria um funcionário que, movido por um sentimento de ética e por um prêmio atrativo, pudesse contribuir com a gestão e saúde financeira da organização, evitando perdas significativas e a consequente manutenção de seu emprego e de seus colegas.

Não custa lembrar que, em muitos casos, uma fraude de impactos profundos pode até significar a falência da companhia.

Para viabilizar a denúncia premiada é preciso que a empresa ofereça estruturas de confidencialidade, anonimato e segurança absoluta. Algumas multinacionais costumam contar com a expertise de empresas terceirizadas que ficam responsáveis pela gestão das áreas de canais de denuncia, chamadas lá fora de Ethics Line. Incumbi-las desse atributo seria um dos caminhos viáveis.

A gestão pode ser feita também internamente, com alguns seletos responsáveis que receberiam a denúncia e acionariam as áreas de auditoria, compliance e controle para que apurem e investiguem. Uma vez comprovada a fraude ou descaminho, o prêmio seria concedido ao delator de forma confidencial, com o rigor e nos moldes do que ocorre com as premiações dadas pelo poder judiciário em casos de investigação criminal. Essa segurança é essencial para o sucesso da denúncia premiada.

As grandes corporações já possuem programas que apoiam a colaboração. Falta o incentivo da recompensa. Segundo resultados do estudo ‘Vigilância Contra Fraudes no Brasil’ lançado semanas atrás, pela Deloitte, em parceria com o Instituto dos Auditores Internos do Brasil, IBGC e a ACFE Brasil, cerca de 90% de empresas entrevistadas garantem dispor de canais de denúncia estruturados. Ainda segundo o dossiê, 69% identificaram fraudes nos últimos quatros anos.

Vale lembrar que em países mais avançados como os Estados Unidos, há leis e programas que protegem o delator, chamado de whisteblowers (assopradores de apito). São pessoas que agem de forma espontânea em empresas públicas e privadas e essa ação é muito respeitada e respaldada pela justiça desses países.

Quanto as características dos prêmios disponíveis, dependerão do porte da empresa e do tamanho do impacto que o delito causou ou causará à empresa. Ao evitar prejuízos de milhões, é justo que a recompensa seja atrativa e generosa, podendo ser em forma de uma promoção de cargo, de valores financeiros ou até, dependendo do caso, como uma viagem de férias para o colaborador e sua família.

A instituição da Denúncia Premiada deve ser encarada como um ato de cumplicidade entre a empresa e o seu funcionário. É um pacto em nome da ética corporativa. Abrir esse canal de estímulo representa um passo cultural importante, inclusive de cunho social, pois fortalece a confiança entre empregado e empregador, exaltando valores de cidadania e ampliando a corrente contra danosos atos de corrupção.

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* Paulo Gomes é diretor-geral do Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA-Brasil) 

A Auditoria Interna pode trabalhar para os indivíduos errados — Mas não para as “pessoas erradas”

*Richard Chambers, presidente do The IIA Global

Meu papel como chefe de uma organização global me oferece a oportunidade de interagir com pessoas que apreciam uma certa quantidade de celebridade e fama. Atuar como presidente e CEO do The IIA me proporcionou a oportunidade de conhecer chefes de estado, membros do Congresso dos EUA, o secretário-geral das Nações Unidas e diversos diplomatas, acadêmicos e atores.

Embora seu conhecimento e excelência em seus respectivos campos de atuação tenham ajudado a elevá-los ao status de celebridade, seu conhecimento e apreciação pela auditoria interna geralmente são limitados. Uma exceção interessante e notável é o ator Richard Dreyfuss, ganhador do American Academy Award, palestrante principal da recém realizada International Conference de 2019 do The IIA.

A célebre carreira de Dreyfuss se estende por mais de 50 anos, incluindo seu papel como o infame Bernie Madoff na aclamada mini-série Madoff, da ABC. Mas é o seu trabalho fora de Hollywood que fortaleceu sua visão sobre a importância da prestação de contas, confiança e transparência nos setores público e privado. Sua dedicação para melhorar a transparência e a prestação de contas, especialmente no governo, se manifesta na criação da The Dreyfuss Civics Initiative. A fundação sem fins lucrativos e apartidária foi criada em 2008, com o objetivo de reviver “o ensino da educação cívica na rede de ensino pública americana, para capacitar as futuras gerações com as habilidades de raciocínio crítico necessárias para atender o vasto potencial da cidadania americana”, segundo o site do grupo.

Ao me preparar para apresentar o “Fireside Chat” com Dreyfuss, que deu início à conferência, passei várias horas em profunda discussão com ele. Durante esse tempo, ficou claro para mim que a sua paixão pelo que fazemos é intensa e sincera.

Isso ficou evidente enquanto ele palestrava para os mais de 2.500 participantes da conferência na sessão geral de abertura. Em várias ocasiões, ele se dirigiu diretamente ao público dizendo: “vocês estão trabalhando para as pessoas erradas”. Seu ponto: o trabalho da auditoria interna ao fornecer uma avaliação independente, de prestação de contas e transparência é importante demais para ser mantido dentro da organização.

Seus comentários foram chocantes para mim, como acredito que tenham sido para muitos na plateia. Uma das verdades fundamentais sobre a auditoria interna é que nosso trabalho é interno à organização. Meu pensamento inicial foi que Dreyfuss não entendia o funcionamento da auditoria interna, de um modo geral. Porém quanto mais eu refletia sobre seus comentários — sinceramente, não consegui tirá-los da cabeça por algum tempo — mais eu fui levado à acreditar que ele estava certo.

Às vezes, trabalhamos sim para as pessoas erradas.

Para ficar mais claro, Dreyfuss estava se referindo à estrutura da auditoria interna trabalhando dentro da organização e reportando-se à diretoria executiva e a administração quando ele disse: “vocês estão trabalhando para as pessoas erradas”. Eu Discordo. Mas concordo que há momentos em que “os indivíduos errados” ocupam diretorias e posições executivas.

Muitas vezes, os membros do conselho são escolhidos por quem conhecem, não pelo que sabem. Muitas vezes, membros do conselho preferem seguir os demais para manter bons relacionamentos. Muitas vezes, os CEOs ou presidentes do conselho são motivados pelo que é melhor para si e não pelo que é melhor para a organização. Vimos muitos exemplos recentes disso em escândalos corporativos ao redor do mundo.

Mas é importante entender que, quando isso acontece, a deficiência não está na estrutura, mas nos indivíduos que ocupam papéis-chave dentro dessa estrutura.

A boa governança é complexa e exige que cada pessoa-chave do processo seja eficaz. Isto requer um conselho de administração que seja questionador, informado, cético e disposto a apoiar uma avaliação independente e objetiva. Isto requer ainda uma administração que apoie o sucesso a longo prazo, em detrimento dos ganhos de curto prazo, e que apoie a função de avaliação independente cujo o único objetivo é o de promover e proteger o valor da organização.

Quando o conselho de administração ou a gerência executiva não cumprem com seu papel na governança, isso torna o trabalho de auditoria interna ainda mais difícil.

Frenquentemente, os profissionais me perguntam qual a melhor forma de lidar com tabus que poderiam lhes custar o seu emprego. Minha resposta padrão é que os auditores internos devem ter a coragem em assumir os desafios que vêm associados com sua função. No meu segundo livro, Trusted Advisors: Key Attributes of Outstanding Internal Auditors, eu defino a coragem como: “ser bravo o suficiente para fazer a coisa certa, mesmo diante do risco profissional ou pessoal”. Mas é especialmente difícil e desanimador demonstrá-la, quando aqueles acima de você e ao seu redor falham em fazer a coisa certa.

O número de fracassos e escândalos corporativos recentes está gerando insatisfação com os conselhos, com a administração e com a auditoria interna. Os investidores e reguladores estão buscando cada vez mais prestação de contas e transparência. Mas não podemos examinar esse crescente descontentamento e pressão sobre os stakeholders em um vácuo.

A velocidade com que avança a tecnologia e as crescentes interdependências globais estão acelerando os riscos e as interrupções. A capacidade de lidar com eles requer que todos os participantes do processo de governança estejam bem preparados. A auditoria interna deve apoiar a boa governança, adaptando-se às mudanças tecnológicas, fomentando relacionamentos de apoio mútuo com os stakeholders e tendo a coragem de se manifestar quando as coisas derem errado.

O nosso objetivo deve ser de cultivar relações de trabalho ideais com nossos stakeholders, que levem a uma auditoria interna eficaz e eficiente, e a uma governança de alta qualidade. Só então poderemos dizer que estamos trabalhando para os indivíduos certos e para as pessoas certas.

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Richard F. Chambers, presidente e CEO do Global Institute of Internal Auditors, escreve artigos semanais para um blog da InternalAuditor.org sobre assuntos e tendências relevantes para a profissão de auditoria interna.

Auditor especialista em cibersecurity de governos participa do Conbrai em Florianópolis

Larry Harrington, um dos mais respeitados profissionais da carreira no mundo, que virá ao Brasil para falar sobre a tecnologia na arte de auditar. O americano abrirá a 39a edição do Conbrai (Congresso Brasileiro de Auditoria Interna), em apresentação para quase mil profissionais de todo País. O evento ocorrerá em Florianópolis, entre os dias 15 e 17 de setembro, no Centro de Convenções.

Harrington é considerado um dos maiores especialistas em defesas de mercados governamentais, por sua atuação de anos como executivo chefe de auditoria da Raytheon Company. A empresa americana atua na área de armamentos e equipamentos eletrônicos para uso militar e comercial e é a maior produtora mundial de mísseis guiados. Ele também possui intensa relação com o The IIA (The Institute of Internal Auditors), tendo sido diretor e ex-chairman da entidade que é a maior da carreira no mundo – com 200 mil auditores associados, presentes em 170 países. Durante suas gestões, além de ter sido um dos líderes no desenvolvimento do uso da robótica e inteligência artificial na auditoria, foi reconhecido e admirado por sua luta ligada a diversidade de gêneros e raças no ambiente corporativo.

Em sua apresentação no Conbrai este ano, o especialista abordará desafios tecnológicos que irão cada vez mais impactar a rotina do auditor, como a inteligência artificial e a chamada auditoria 4.0. “Além de chairman do The IIA, Harrington atuou como líder de uma corporação extremamente complexa, do ponto de vista de riscos e confidencialidade. Além de ser um nicho específico, a indústria de misseis guiados é uma das que mais necessita de níveis elevados de compliance e governança. Tê-lo conosco será um privilégio e aprendizado imenso”, revela Paulo Gomes, diretor-geral do IIA Brasil (Instituto dos Auditores Internos do Brasil), entidade promotora do Conbrai 2019.

Ano passado, Larry foi convidado a fazer parte do American Hall of Distinguished Audit Practitioners, a mais distinta honra concedida a um profissional de auditoria no mundo. Em seu legado, além da atuação no segmento bélico e de segurança governamental, ele tem passagens como vice-presidente de auditoria nos setores de operações, de finanças, de recursos humanos, e em diversas outras empresas listadas na Fortune 100. Apesar de aposentado, ele segue promovendo a carreira com palestras globais e com seu trabalho junto à Fundação de Auditoria Interna, mantida pelo The IIA.

Larry Harrington ex-chairman The IIA

O americano Larry Harrington, um dos pioneiros da aplicação da inteligência artificial no mundo da auditoria interna, será um dos destaques do Congresso Brasileiro de Auditoria Interna que ocorrerá em Florianópolis no próximo mês de setembro

Expectativa de recorde 

São esperados mais de 800 participantes para o Conbrai deste ano, marcando-o como o maior da história, em quase 40 edições do congresso, dando um claro sinal sobre o fortalecimento e valorização da profissão. O tema central será ‘A Tecnologia e Inovação para a Auditoria Interna’ em um evento com mais de 30 apresentações. Entre os painéis, destaque para questões que envolvem Lava Jato, Lei Anticorrupção, compliance, auditoria governamental, prevenção a fraudes, big data, analytics e auditoria de TI. Também estão previstas realizações de debates inéditos com a presença de gestores de corporações internacionais.

As inscrições para o congresso já estão abertas e podem ser realizadas por meio do site: iiabrasil.org.br/conbrai.