Auditores Internos: Se virem algo, digam algo

*Richard Chambers, presidente do The IIA Global

Na lista das “5 Resoluções do Auditor Interno para 2019” eu incluiu um ponto importante que é familiar para a maioria em diferentes contextos, mas também para nossa profissão: “se você vir algo, diga algo”. Normalmente usados no contexto da segurança pública, o slogan tem desempenhado um importante – embora às vezes controverso – papel na prevenção de bombardeios e outros ataques terroristas, de acordo com relatos da mídia.

À primeira vista, “se vir algo, diga algo” pode não parecer um problema da auditoria interna. Mas o conceito se aplica a situações que os auditores internos enfrentam todos os dias. Frequentemente, vemos problemas e reportamos sobre eles durante as auditorias, mas “se vir algo, diga algo” também se aplica a problemas que podem não estar no escopo de uma auditoria. É fácil fazer vista grossa quando algo não está formalmente documentado em nossos papéis de trabalho. Mas temos uma obrigação maior – um propósito maior. Como as organizações tem essa consciência, devemos estar constantemente vigilantes.

No início da minha carreira, passei pela situação de receber ordens para fazer vista grossa, porque algo não estava no escopo de uma auditoria. Como auditor interno júnior, estava trabalhando em uma auditoria de administração de contratos em uma base do Exército dos EUA. Estávamos revendo os arquivos de contratos em uma instalação de manutenção de veículos, quando percebi que vários contêineres de materiais de resíduos tóxicos estavam largados em um canto da instalação. Eles não estavam marcados, mas eu tinha certeza de que eles continham derivados de petróleo usados. Mais importante ainda, pelo menos dois dos recipientes de 50 litros estavam vazando. Relatei isso ao meu chefe. Ainda me lembro de sua resposta: “Richard, não é para isso que estamos aqui. Se começarmos a reportar tudo que vemos errado, nunca sairemos daqui.”

Embora meu chefe tenha se recusado a comentar sobre o que eu tinha certeza que era uma violação de conformidade ambiental, tornei-me um forte defensor da inclusão de uma revisão da manutenção de resíduos perigosos no plano de auditoria interna do ano seguinte. Percebi que o dano já havia sido feito, mas sempre acreditei que, quando vemos algo, devemos dizer algo.

Manifestar-se sobre observações que não estão no escopo de nossas auditorias pode exigir luvas de pelica – não luvas de boxe. Quando você encontrar problemas, a forma como você os aponta pode determinar se você é visto como útil ou como um fofoqueiro sabichão; como uma fonte confiável de informações e conselhos, ou como um dedo-duro. Você não precisa gritar aos quatro ventos toda vez que perceber um pequeno problema. Mas se você vê algo errado e você é um auditor interno, você precisa dizer algo, e muitas vezes você precisa dizê-lo rapidamente e com cuidado. Você não precisa usar um tom acusatório e não precisa atribuir culpa a alguém. Se você estiver em uma equipe de auditoria, alerte o líder da equipe (como eu fiz). Se você reportar diretamente ao chief audit executive (CAE), aborde o assunto com ele ou ela. Se você for o CAE, então leve a questão à administração – ou se a administração estiver envolvida ou não for responsiva, leve a questão ao comitê de auditoria.

Como auditores internos, apontar possíveis áreas problemáticas é uma parte fundamental de nossos trabalhos. Devemos estar dispostos a tomar a iniciativa e falar com coragem quando vemos comportamentos potencialmente prejudiciais ou que criem riscos, mesmo quando os principais executivos estiverem envolvidos. Alguns exemplos de coisas que podemos observar que podem justificar dizer alguma coisa são:

  • Segurança física negligente nas instalações que estamos auditando.
  • Proteção inadequada de documentos confidenciais ou proprietários em instalações que estamos auditando.
  • Práticas de gastos extravagantes ou de desperdício na organização.
  • Violações de políticas corporativas ou regulamentos fora do escopo da auditoria (como as violações de armazenamento de petróleo que observei).
  • Comportamento indevido da equipe ou da administração nas instalações onde estamos realizando as auditorias (assédio sexual ou outro tipo de assédio aos membros da equipe de auditoria ou outros funcionários).
  • Utilização de atalhos pelo pessoal ou administração que viola políticas para atingir os objetivos predeterminados (comportamento de “os fins justificam os meios”).
  • Declaração indevida ou deturpação de fatos em uma reunião de equipe ou reunião do conselho, ou informações imprecisas fornecidas a um regulador.

Manifestarmo-nos quando vemos algo impróprio não se limita às ações da gerência organizacional ou da equipe. Nós também devemos nos considerar responsáveis. Por exemplo, se notarmos que os colegas de auditoria interna estão pegando atalhos que podem prejudicar a precisão ou a credibilidade de uma auditoria interna, não devemos hesitar em dizer algo.

Nos últimos meses, tenho escrito e falado sobre os riscos que os déficits de coragem apresentam à nossa profissão. Devemos constantemente checar nossa própria bússola moral para validar se estamos agindo ética e corajosamente na execução de nossas responsabilidades. Quando você observa algo errado (mesmo que não esteja no escopo de sua auditoria), você tem a oportunidade e a obrigação de compartilhar as informações necessárias que possam ajudar sua organização. Algumas pessoas podem ver isso como ser dedo-duro. Mas em muitos casos, aqueles que castigam alguém como um dedo-duro estão com raiva de terem sido pegos em suas transgressões. Para as nossas organizações e outras pessoas que estejam sendo ameaçadas ou feridas pela transgressão, as iniciais SNITCH (“dedo-duro” em inglês) simplesmente significam “Share Needed Information That Can Help” (“compartilhe informações necessárias que podem ajudar).

Aguardo suas opiniões sobre o ato de se manifestar.

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Richard F. Chambers, presidente e CEO do Global Institute of Internal Auditors, escreve um blog semanal para o InternalAuditor.org sobre questões e tendências relevantes para a profissão de auditoria interna.

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Instituto Global de Auditoria lança guia e pesquisa da profissão

Às vésperas do maior evento de auditoria já realizado no país, o CLAI – Congresso Latino-americano de Auditoria Interna, acaba de ser disponibilizado ao mercado brasileiro o Guia da Carreira 2018, que mostra resultados relevantes de uma função cada vez mais valorizada no mundo corporativo. O material traz dados significativos de pesquisas e pretende ser uma bússola clara e completa sobre uma profissão que tornou-se essencial em empresas públicas e privadas.

O guia é uma produção elaborado pelo The IIA – The Institute of Internal Auditors, maior organização da carreira no mundo, com 190 mil associados, em 170 países. O livro de 20 páginas aponta um expressivo crescimento da profissão nos Estados Unidos, de 11% no período entre 2014 e 2024, o que representa um patamar 57% maior na comparação com outras funções administrativas. Também constata que 80% dos auditores que possuem certificações internacionais, alcançam os maiores ganhos salariais.

Todo o conteúdo acaba de ser traduzido para o português pelo Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil), principal entidade da carreira no país, filiado ao The IIA. A entidade passa a disponibilizar o Guia gratuitamente para interessados. “Trata-se de um dossiê riquíssimo, que aponta as principais nuances, demandas e expectativas da profissão. Servirá de bússola orientadora para contribuir na gestão de quem já atua com auditoria e para aqueles que vislumbram entrar nesse mercado com forte potencial de crescimento”, comenta Braselino Assunção, diretor-geral do IIA Brasil.

Além de mostrar diretrizes para obter sucesso na carreira, o estudo trata de temas atuais como big data, cibersegurança e privacidade. Outro dado interessante, revela que o custo médio causado por uma violação de dados ultrapassa R$ 15 milhões, além de diversos danos, como, por exemplo, os dias em que áreas das empresas ficam comprometidas por conta desses escândalos internos.

Ainda sobre certificações, quem as possuem ganham até 60% a mais de salário na comparação com auditores não certificados. As capacitações e cursos extras também são comprovadamente importantes para a função. Quem está em cargos altos, realiza ao menos 64 horas de treinamentos por ano.

Também há importantes insights sobre o perfil que mais atrai os gestores na escolha para contratações. Segundo o estudo, 79% dos líderes de empresas consideram como fatores mais relevantes as habilidades críticas e a compreensão da ética profissional.

Um dos sinais de aquecimento da auditoria interna nos últimos anos será a quebra de recordes em participação durante o Clai 2018, que acontecerá entre 21 e 24 de outubro, em Foz do Iguaçu (PR). São esperados mais de 1000 profissionais, qualificando o evento como o maior já realizado da carreira no país.

Para fazer o download do Guia da Carreira 2018 basta acessar o site do IIA Brasil no endereço iiabrasil.org.br , registrar-se e baixar o arquivo de forma gratuita.

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Sobre o IIA Brasil

O Instituto dos Auditores Internos do Brasil completou 57 anos de fundação sendo uma das cinco maiores entidades da carreira do planeta, entre os 190 países associados ao The Institute of Internal Auditors –The IIA, a mais importante associação do setor no mundo. Referência na América Latina, o IIA Brasil auxilia na formação de outros institutos como o IIA de Angola. No Brasil, a entidade coordena todo o processo de obtenção de certificações internacionais, como o CIA (Certified Internal Auditor), além de promover debates, cursos técnicos, seminários e o Conbrai – Congresso Brasileiro de Auditoria Interna.

Mais informações sobre o IIA Brasil –  Tel.: (11) 5523-1919 – iiabrasil.org.br

6 sinais de que sua última Auditoria Interna marcou um golaço

*Richard Chambers, presidente do The IIA Global

Como venho escrevendo em meu blog há quase 10 anos, acho que a auditoria interna pode ser um dos trabalhos mais gratificantes do planeta. Mas, sejamos sinceros, não importa o quão bom você seja em seu trabalho, é improvável que as pessoas visitem seu escritório todos os dias, ou publiquem um comentário nas mídias sociais, só para dizer o quanto elas amaram sua última auditoria. Ainda assim, como escrevi em 2011, há sinais inconfundíveis de que sua última auditoria foi, de fato, um grande sucesso. Aqui estão alguns dos meus indicadores favoritos de que um relatório de auditoria interna acertou em cheio e marcou um golaço.

1. Seu comitê de auditoria pede especificamente que você informe os membros sobre sua última auditoria

Na maioria das organizações, o CAE participa regularmente das reuniões do comitê de auditoria, mas é menos provável que outros auditores internos também participem. Se você normalmente não é convidado, mas desta vez o comitê de auditoria quer ouvir você, parabéns! Muito provavelmente, sua auditoria tratou de um risco crítico ou teve repercussões importantes e seus esforços estão sendo notados. Nesse caso, você e a auditoria interna marcaram um golaço. (A não ser que o comitê de auditoria tenha chamado você simplesmente porque os membros queriam criticar sua auditoria. Aí, infelizmente, não foi um golaço, e sim um gol contra. 

2. O CEO ou CFO esbarra com você no corredor e começa a falar sobre a auditoria

Quando as pessoas param o que estão fazendo apenas para falar sobre os resultados de uma auditoria recente, é bem provável que você esteja fazendo a diferença em sua organização. Qualquer reconhecimento especial de uma auditoria, mesmo em uma reunião improvisada, indica que as pessoas têm pensado sobre o seu relatório e suas consequências. Vejo isso como um grande sinal de que a auditoria interna está funcionando como um agente de mudança positiva.

3. Suas recomendações de auditoria levam a significativas economias de custo, aumentos de receita e/ou a ganhos de eficiências

Todo mundo ama dinheiro. Se o seu relatório de auditoria interna resultou em uma redução significativa de custos ou melhorou materialmente o resultado da organização, tenho certeza de que você já sabe que a auditoria marcou um golaço. Estes são resultados que deixariam qualquer auditor orgulhoso. Os auditores internos sabem que dinheiro não é a única coisa que importa – mas nunca é demais.

4. Sua auditoria interna revela um grande risco, antes não reconhecido, ou impede uma grande fraude

Quando uma auditoria interna descobre um problema sério ou impede que um grande problema ocorra, você sabe que fez a diferença. Lidar com um risco grave pode não aumentar a receita, mas, às vezes, uma recomendação de auditoria interna pode até salvar uma vida – e a auditoria interna que fizer isso, terá marcado um golaço, na opinião de qualquer um.

5. A gerência operacional pede seus conselhos sobre questões adicionais ou relacionadas a um relatório recente de auditoria

Se você receber um retorno da gerência operacional, pedindo orientações adicionais, você pode considerar que sua auditoria foi um sucesso. Quando a gerência operacional pede sua opinião sobre as operações, é provável que sua auditoria tenha acertado em cheio. Mas não conta se alguém ligar para você apenas para pedir conselhos sobre como redigir uma resposta a uma recomendação de auditoria.

6. Sua auditoria divulga (e a gerência concorda) que a cultura é a causa (raiz) de uma ou mais descobertas de seu relatório

Para ser honesto, este item não estava na lista que publiquei pela primeira vez em 2011. No entanto, as expectativas de que a auditoria interna comente sobre a cultura aumentaram drasticamente nos últimos anos. Qualquer auditor interno que possa identificar claramente a cultura como causa raiz em um relatório de auditoria, para mim, pode ser indicado para ganhar a “bola de ouro”.

Estes não são os únicos indicadores de que a auditoria interna marcou um golaço. Na verdade, o sinal mais forte de que uma auditoria interna foi bem-sucedida é muitas vezes único às circunstâncias daquele trabalho específico. É claro que, se uma única auditoria obteve todos os resultados acima, as chances são de que não foi apenas um golaço. Foi a conquista da Copa!

Adoraria receber suas opiniões. Você tem exemplos reais de momentos em que você percebeu que sua última auditoria interna foi um sucesso? Compartilhemos as experiências!

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Richard F. Chambers, presidente e CEO do Global Institute of Internal Auditors, escreve um blog semanal para o InternalAuditor.org sobre questões e tendências relevantes para a profissão de auditoria interna.