Auditoria de olho na Inteligência Artificial

Uma mescla de hardware e software com a pretensão de agir como um cérebro humano. A chamada Inteligência Artificial (IA), tem conquistado cada vez mais espaço em organizações corporativas em todo o mundo, gerando benefícios significativos, mas também, enormes desafios. O alerta de atenção sobre essa polêmica ferramenta, passou a ser sinalizado pelo The Institute of Internal Auditors (The IIA) – o maior organismo de auditoria no mundo – que decidiu produzir uma cartilha didática sobre o papel desses profissionais diante da Inteligência Artificial.

O documento foi traduzido pelo IIA Brasil – Instituto dos Auditores Internos do Brasil – com a autorização para divulgar a seus associados. O objetivo central é esclarecer quais as posturas mais íntegras e efetivas que profissionais devem tomar, a fim de lidar com um sistema concebido para encontrar probabilidades, mas que, se desenhado de maneira equivocada, pode causar injustiças aos colaboradores e até danos significativos à corporação.

A cartilha chamada “Tone at the top” – propõe entender o que define a IA, abordando sobre sua construção, aplicação, gestão e controle. O documento ressalta que esses sistemas são criados por humanos, portanto, são parciais, críticos e injustos. Cabe aos gestores recorrerem à auditoriainterna para conduzir testes que determinem se os resultados produzidos pela IA refletem o objetivo original e se não foram distorcidos pelas parcialidades dos criadores da tecnologia.

Além disso, a cartilha afirma que os auditores também precisam estar responsáveis por testes de confiança, precisão, repetibilidade e integralidade, bem como pela mensuração de desempenho da IA. Eles necessitam alertar os gestores, o conselho de administração e as partes interessadas, que há possíveis riscos de equívocos, quanto a lógica humana, incorporados à tecnologia de IA. Somente assim, será possível alcançar uma conclusão clara do valor real que ela trará à empresa, seja ela pública ou privada.

De acordo com Fabio Pimpão, diretor do IIA Brasil, as premissas apresentadas pelo instituto global confirmam que a Inteligência Artificial será um divisor de águas crucial na carreira do auditor interno. “É um alerta de que temos que olhar para o futuro. As corporações precisam investir em auditoria, dando-lhes autonomia para que elas façam uma completa imersão de avaliação da IA implantada. Por outro lado, se o auditor não estiver preparado para esses audaciosos desafios, com postura proativa e vasto conhecimento, ele dificilmente encontrará portas abertas nesse novo mundo corporativo que se desenha”, prevê.

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Mais informações sobre o “Tone at the Top”, acesse o site do IIA-Brasil: www.iiabrasil.org.br

 

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Instituto dos Auditores Internos do Brasil oficializa apoio à operação Lava Jato

O país não pode mais tolerar a corrupção corporativa. É esta a mensagem de engajamento que o IIA Brasil – Instituto dos Auditores Internos do Brasil – o quinto maior organismo da carreira no mundo, pretende passar a auditores de todo o país, ao anunciar o apoio oficial e irrestrito à operação Lava Jato e ao trabalho do Ministério Público Federal.

O comunicado foi feito na manha desta terça-feira, 28 de novembro, pelo diretor geral do IIA Brasil, Braselino Assunção, durante a coletiva de imprensa concedida pelo Procurador da República, Deltan Dallagnol, após sua palestra a centenas de auditores internos presentes na 38a edição do Conbrai – Congresso Brasileiro de Auditoria Interna. O evento acontece até quarta-feira (29), no Rio de Janeiro.

A direção do IIA Brasil lamenta a descaracterização feita pelo Congresso Nacional, sobre a proposta com as 10 Medidas Contra a Corrupção, sugerida há dois anos pelo Ministério Público Federal, que alcançou quase dois milhões de assinaturas. O Instituto dos Auditores Internos do Brasil também repudia com veemência toda e qualquer forma de intimidação realizada para prejudicar o andamento das investigações que envolvam fraudes e crimes de corrupção, em organizações públicas e privadas.

A entidade usará todos os seus canais de comunicação para convocar os milhares de auditores internos em atuação no país, em uma corrente que una esses profissionais em prol de um país mais ético, e para que todos apoiem o trabalho do Ministério Público Federal, encorajando e fortalecendo as investigações da operação Lava Jato.

O IIA Brasil ressalta a importância essencial das colaborações premiadas e dos acordos de leniência realizados com empresas dos mais diferentes setores da sociedade. O Instituto entende que o uso desses instrumentos é fundamental para descobrir desvios de conduta e imensos esquemas de corrupção, muitas vezes liderados por gestores e agentes da alta administração de corporações.

O recorde de participação, com mais de 800 profissionais, no maior congresso de auditoria já realizado no país é prova irrefutável da importância e valorização do auditor interno no cenário nacional. São guardiões da boa governança e da gestão de empresas, atores cruciais que além de eficientes, necessitam ser idôneos, resistente às tentações de um cenário voraz, que sempre teve como tônica a impunidade e o infortúnio do chamado jeitinho brasileiro.

O Instituto dos Auditores Internos do Brasil tem convicção que o trabalho do Ministério Público Federal, com a operação Lava Jato, já mudou o país. Colocou-o nos trilhos de um longo e árduo caminho de combate à corrupção, sem volta. A entidade assume sua responsabilidade como disseminadora de valores éticos e das melhores práticas de conduta profissional. Tem a obrigação de apoiar toda e qualquer ação em prol de uma transformação real na conduta e nos processos das organizações privadas e públicas do país.

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A palestra do procurador da República, Deltan Dallagnol, ocorreu nesta nesta terça-feira (28) no Rio de Janeiro (Foto: IIA-Brasil/Divulgação)

Comunicar para melhor auditar

*Por Paulo Gomes

Auditar é a arte de comunicar. Poucos relacionam o perfil de um auditor interno como um profissional capaz de mostrar predicados no papel estratégico de transmitir informações. Mas entre as inúmeras revelações desvendadas pela Lava Jato, umas das mais importantes – e quase não abordada pela mídia – é o binômio falta de integração e redundância nas ações dos organismos de controle e fiscalização.

Há um imenso paradoxo entre os maciços investimentos realizados nas últimas duas décadas, em controles e regulações para evitar fraudes, com a enxurrada de barbaridades reveladas pela icônica investigação. A conta não fecha, mas há explicações: temos muitos organismos não falando a mesma língua e com lampejos perigosos de atuarem ao redor de fogueiras de vaidade.

Há um emaranhado de infelizes atropelamentos burocráticos, aliado a absurdos retrabalhos que resultam na ineficácia de diversos sistemas de fiscalização e controle, gerando custos além do necessário. Qualquer grande empresa está sujeita a avaliação de inúmeros órgãos de revisão, sendo que se for estatal, a checagem quase dobra. Transações, processos, compras e vendas, quase tudo passa por gestores da área, pelo controle interno, compliance e pela própria auditoria interna, que testa o que foi fiscalizado anteriormente, além de fazer uma avaliação abrangente de toda a empresa. Ela deve interagir com todos esses organismos citados, inclusive pelo comitê de ética e pela ouvidoria.

Entram agora no time de combatentes contra desvios de condutas, organismos externos como: auditoria  externa, órgãos reguladores e as controladorias municipal, estadual e federal, representadas pela CGU (no âmbito federal) e por tribunais dos municípios (TCM), dos estados (TCE) e da federação (TCU). Há ainda o Ministério Público, a Polícia Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), entre diversos outros.

Com todo esse aparato para combater irregularidades, parece que vivemos em um cenário seguro, só que não. No país onde o termo miscelânea é  fator cultural, não se torna surpresa perceber que a falta de comunicação e integração entre cada poder, dificulta o efetivo combate a corrupção. Os atributos com a definição de quem é responsável por determinada ação precisam ser mais claros e objetivos.

Em meio a tantos coadjuvantes envolvidos nos processos de análise e investigação, surgem brechas que são usadas estrategicamente por fraudadores. Apesar da competência técnica dos órgãos fiscalizadores, a falta de comunicação cria uma colcha de retalhos, repleta de falhas que retratam um sistema de controle amplo, mas incapaz de dar o resultado que a sociedade espera.

O excesso de burocracia também surge como um dos culpados pela fraqueza dos sistemas de controles de riscos. Enquanto áreas ficam travadas, outras se aproveitam do vácuo deixado por atuações incoerentes para cometer os mais criativos e danosos atos ilícitos, desde fraudar licitações até maquiar resultados e balanços.

O retrabalho é tônica cultural em nossa sociedade. Falta agilidade em dar respostas positivas em operações e é preciso evitar que os organismos de controle se esbarrem em processos de avaliações idênticos, reduzindo atropelos e disputas de ‘egos’.

Se não houver qualidade em comunicação, processos e procedimentos importantes ficarão sem fiscalização, formando um limbo, um terreno vazio que criará margem para oportunidades de desvios de conduta. Em um jogo equivocado, quem perde, claro, é a sociedade que já não aguenta mais tanta ineficácia.

Após a Lava Jato os órgãos fiscalizadores deverão rever a forma de atuar, em busca de uma fórmula que evite sacrificar as áreas produtivas, com excesso de pedidos redundantes e retrabalho. Se não houver um projeto macro e coeso de comunicação, com treinamento adequado, com uso de tecnologia e integração entre esses órgãos de controle, a ducha de limpeza da Lava Jato terá apenas retirado um pouco da sujeira do caos ético que atinge o país. Temos que clamar por auditorias integradas, para que sejam efetivas e que não sejam vistas apenas como geradoras de custos, incapazes de evitar graves enfermidades concebidas por fraudes corporativas.

Paulo Gomes

*Paulo Gomes é diretor do Instituto dos Auditores Internos do Brasil – IIA Brasil