Ética é a alma de um auditor

*Por Fábio Pimpão

O combate à corrupção tem colocado a atuação de auditores no holofote da mídia. Um dos mais discretos trabalhos do mundo corporativo, tornou-se crucial para a sobrevivência de empresas públicas e privadas, figuras estratégicas para um país mais justo. O perfil ideal desses profissionais passou a ser questionado, com exigências cada vez maiores, impostas pela alta administração e por stakeholders, que buscam protagonistas munidos de absoluta ética e capacidade de antecipar os mais complexos desafios. Esses predicados, são hoje compulsórios.

O The IIA – The Institute of Internal Auditors – principal organismo da carreira no planeta, prega que o princípio básico do auditor é a ética. A entidade enfatiza em seu livro chamado de IPPF – que traz as normas internacionais da profissional – que aquele que não cumpre com os pilares éticos estabelecidos nessa publicação, não pode ser considerado um auditor.

Demanda-se um profundo conhecimento técnico, mas também é enorme a exigência por um auditor mais humano, capaz de lidar com coerência, com desafios de prazos apertados e recursos escassos. É preciso aprimorar habilidades de comunicação, de persuasão, de senso crítico e ter discernimento isento, ao tratar de questões estratégicas com o responsável por cada área.

Um profissional ético sabe que a necessidade de investir em certificações da carreira é eterna. São as atualizações que o tornará, competitivo, eficiente e apto a agregar valor aos stakeholders.

Mais que a análise contábil, o auditor moderno conhece o negócio da corporação em que atua, com extrema profundidade. No último levantamento sobre o perfil profissional, promovido pelo The IIA, com mais de 14 mil auditores espalhados no mundo, o fator que mais destoou na América Latina, das demais regiões foi justamente o conhecimento do negócio. Estamos 10% abaixo da Europa nesse quesito. Em contrapartida, quando falamos de persuasão e colaboração, estamos 25% acima da Ásia.

Decorrente do cenário político e económico brasileiro,quando olhamos as habilidades que um diretor de auditoria busca ao contratar, vemos elevada dissonância. Na América Latina, a procura por auditores com técnicas em prevenção a fraudes e investigação é 50% maior do que o resto do mundo. Um fator cultural triste.

Após a sanção da Lei Anticorrupção, cresceu a demanda por auditores expert em compliance. Não basta verificar se os números contábeisestão íntegros e se os riscos de negócio estão sendo devidamente mitigados, o auditor do futuro tem que estar preparado para o inesperado.

A pressão por trazer a notícia ruim antes que ela aconteça tem se tornado tônica na rotina de auditores. Ter habilidades em Data Analytics é hoje um diferencial na carreira, e em breve será exigência de mercado. Essa plataforma digital de auditoria, é parceira da ética, pois reduz as margens para desvios de conduta ao envolver menos ‘mãos’ nos processos.

De um profissional que apenas checava demonstrações financeiras, o auditor interno é hoje um dos responsáveis pelo sucesso ou falência de uma organização. O ganho de responsabilidade reflete a imagem de seu papel social. É preciso preparar-se para as evoluções técnicas, mas a integridade de suas ações é o valor que mais precisamos nos dias de hoje. OBrasil deve reduzir a corrupção corrosiva e o auditor é peça fundamental deauxílio nesse momento crítico em que vivemos.

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Foto: IIA-Brasil/Divulgação

*Fabio Pimpão é diretor do Instituto dos Auditores Internos do Brasil – IIA Brasil

ENTREVISTA: Evolução do mercado de auditoria interna no Brasil

O blog do Sindiauditoria conversou com o diretor de Normas e Certificações do IIA Brasil, Fábio Pimpão, sobre a valorização da carreira de auditor interno e avanços do mercado nacional. Segundo dados recentes divulgados pela instituição, se compararmos o número de profissionais da área que possuem alguma certificação, o País ainda engatinha. Dos auditores internos associados ao IIA Norte América (EUA, Canadá e Caribe), por exemplo, 90% possuem algum tipo de certificação, contra apenas 13% dos brasileiros.

SINDIAUDITORIA – Como o mercado de auditoria interna no Brasil tem evoluído nos últimos anos?

Fábio Pimpão – De fato, tem ocorrido um crescimento nos últimos anos e o auditor interno está blindado contra crise atual. Para citar um exemplo, na região de Curitiba, há 10 anos atrás apenas cinco empresas possuíam áreas de auditoria in- terna. Hoje, falamos de cerca de 50 companhias, o que representa uma média de 500 profissionais em atuação. Muitas empresas que não investiam perceberam agora que as áreas de governança corporativa precisam ser mais robustas. `

SINDIAUDITORIA – Ao que podemos atribuir esse aumento no número de profissionais certificados e em busca de certificações?

Fábio Pimpão – O mercado está compreendendo que é preciso não somente ampliar as áreas de auditoria interna, com contratações, mas que, acima de tudo, esses profissionais sejam extremamente qualificados e que gerem os resultados esperados, que são valiosíssimos para a companhia. Há 10 anos eram apenas 50 profissionais que possuíam certificações, hoje temos 500 e deveremos ser 700 até 2019. Ano passado, das certificações internacionais do IIA Global (The Institute of Internal Auditors), emitidas pelo IIA Brasil, quase 300 profissionais obtiveram os selos, o que representa um crescimento de 86% com relação a 2015. Este ano, a expectativa também é positiva, com crescimento na casa de dois dígitos. Algo entre 10 a 15%. São certificações internacionais dificílimas de alcançar, que em geral demandam dos candidatos entre um e três anos para obtenção, mas que são as mais renomadas e admiradas na auditoria interna global. Outros dados relevantes sobre novos profissionais com certificações internacionais do IIA, mostram que o comparativo de crescimento entre o primeiro semestre de 2016 e os cinco primeiros meses de 2017 já é de 47%. O número deverá ser ainda maior após o en- cerramento de junho. De fato, o mercado percebeu que essas qualificações são fundamentais para que eles atinjam o padrão de excelência que almejam, contudo ainda há muito que caminhar.

SINDIAUDITORIA – Quais as iniciativas do IIA-Brasil para valorizar a categoria?

Fábio Pimpão – São várias. Desde traduções de pesquisas globais, do novo IPPF – Estruturas Internacionais de Práticas Profissionais (em inglês) –, até de guias suplementares e artigos de executivos renomados. São ações que auxiliam na atualização do auditor interno. Também estamos com campanhas de incentivo a certificação, descontos no Gleim (cursos preparatórios para obtenção dos certifica- dos) e estamos estudando ampliar o número de seminários em diversas cidades pelo Brasil. Além disso, queremos ampliar a exposição na imprensa brasileira para falar sobre a importância da profissão no combate à corrupção, participando de entrevistas e esclarecimentos que contribuam como utilidade pública.

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O diretor de Normas e Certificações do IIA Brasil, Fábio Pimpão, conversa com o Sindiauditoria sobre a valorização da carreira de auditor interno e avanços do mercado nacional (Foto: IIA-Brasil/Divulgação)