Burnout ronda auditores internos

* Por Rossana Guerra de Sousa

A missão da auditoria interna empolga: aumentar e proteger o valor organizacional através do trabalho realizado de forma objetiva, independente, disciplinada, analisando a governança corporativa, a gestão de riscos e os controles internos.

Essa atuação, no entanto, é afetada pelas condições gerais do ambiente de negócios. Entre os ingredientes nessa panela de pressão destacam-se aspectos como: a volatilidade e complexidade das organizações, exigências de agilidade, constante tomada de decisões, tensão ética e ambiguidade de papéis. Além disso, há ainda, no campo pessoal, o acúmulo de tarefas, o perfeccionismo e o foco excessivo no trabalho.

Esse conjunto de circunstâncias podem levar o auditor interno a um nível de esgotamento físico e mental extremo, como se o corpo e mente clamassem por uma parada. Antes determinado e motivado, pode passar a agir de modo automático; onde havia estímulo, boas ideias e comprometimento, surgem irritação, desânimo e sensação de fracasso. Isso é  burnout.

O termo, repercutiu quando no último dia 28 de maio sua definição foi detalhada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), como “uma síndrome resultante de um estresse crônico no trabalho que não foi administrado com êxito”. Aponta como elementos caracterizadores a sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho. Descrições que soam familiares na rotina de auditores.

Quantos casos de desencantamento e desmotivação com a profissão já presenciamos ou ouvimos em reuniões com amigos auditores ou grupos de discussão? O burnout na literatura acadêmica, traz como causas principais a exaustão emocional, com destaque para àquelas advindas do excessivo turnover e da tensão ética. Ela relata como consequências o aumento dos custos do trabalho – devido a erros ou baixa produtividade – a queda da qualidade dos julgamentos profissionais, além de problemas de convivência.

O debate sobre o tema é acompanhado pelo The Institute of Internal Auditors (IIA Global), maior organização da profissão no mundo. A Instituição trata o tópico com destaque para aspectos como a necessária manutenção da motivação, mesmo ao receber a designação para tarefas repetitivas, pressões por prazos ou rotina desanimadora. O burnout se instala em fases e é preciso estar atento para não permitir que o processo se estenda a um extremo.

É necessário que o executivo chefe da auditoria e os membros de sua equipe, reconheçam os elementos caracterizadores do burnout para poderem apoiar os colegas ainda no estágio inicial do problema. Entre os sinais que podem identificar um quadro da síndrome estão: exaustão, fraqueza, dores musculares, distúrbios do sono, busca pela solidão, irritabilidade, raciocínio lento, baixa autoestima, além de extremos entre horas de excitação e de melancolia.

O IIA Global sugere uma série de cinco passos para extinguir o burnout no exercício da auditoria: reconhecer que o fato está acontecendo; retire-se algum tempo do trabalho, faça programas diferentes com a família e amigos; analise as lacunas de competência de seu trabalho; monte uma estratégia para a carreira e seja corajoso para lidar com situações adversas.

Adicionalmente, é necessário estimular a convivência com outros profissionais de auditoria em networking profissional, como em seminários, debates e congressos promovidos pelo Instituto dos Auditores Internos do Brasil ou por outras entidades. A troca de experiências ou os novos ‘ares’ proporcionados são fontes renovadoras e podem contribuir para revigorar a carreira e manter a energia e o entusiasmo necessários para a plena realização da missão da auditoria, além de ser excelente ambiente de atualização e encontro com amigos.

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*Rossana Guerra de Sousa é auditora governamental, doutora em ciências contábeis, conselheira do Instituto dos Auditores Internos do Brasil e ainda atua no Tribunal de Justiça da Paraíba e na Universidade Federal do mesmo Estado – rossana.guerra@iiabrasil.org.br

A auditoria interna na Era da pós-verdade

*Por Marcus Vinicius de Azevedo Braga e Rossana Guerra de Sousa

O termo ‘pós-verdade’ tem registro originário de seu uso em um artigo na revista The Nation em 1992, e é definida pela Oxford Dictionaries como “um adjetivo relacionado ou evidenciado por circunstâncias em que fatos objetivos têm menos poder de influência na formação da opinião pública do que apelos por emoções ou crenças pessoais”.

O conceito ganha relevância com impacto exponencial em um mundo dito também “pós pós-moderno” – onde a opinião pública é formada, paradoxalmente, em uma era de big data, mais baseada em razões sensitivas e emocionais do que em informações exatas e argumento lógicos, sem a consistência da análise detida, impelida pela rapidez e poder de influência das plataformas digitais.

O conceito de disseminação ou formação de opinião a partir de fatos não reais ou manipulados em seus contextos não é novo. No entanto, a forma e impacto de tais ‘não verdades’ sobre a tomada de decisão dos agentes tem sido amplificada, com destaque, em todo o mundo, para seus efeitos no segmento governamental. O exercício da função de auditoria interna no âmbito da gestão pública não pode passar ao largo desses elementos em seu contexto operacional e precisa considerar os possíveis impactos destes fatores na construção da opinião pública a partir da comunicação dos resultados do seu trabalho.

Estrutura Internacional de Práticas Profissionais (IPPF) publicada pelo The IIA – The Institute of Internal Auditors, cuida dos impactos interpretativos e valorativos na formação e divulgação dos resultados da auditoria, mesmo antes da explosão das plataformas digitais e pós-verdades, por meio do conceito de objetividade. Citado 21 vezes no IPPF, o reforço à objetividade do auditor é destacado nos Princípios Fundamentais, nos Princípios do Código de Ética, nas Normas, com destaque para a responsabilidade do executivo chefe da auditoria no cuidado e reforço da objetividade.

Para assegurar resultados que agreguem valor à gestão pública, a auditoria pública precisa ser vigilante desde a seleção de trabalhos, partindo de um Planejamento institucionalizado para os trabalhos que devem seguir uma análise de riscos com critérios racionais e não motivados por aspectos circunstanciais ou midiáticos. A execução do processo deve ser conduzida com seleção de testes realizadas a partir de uma efetiva análise dos riscos, para a obtenção de evidências robustas, fortemente lastreada em dados, contextualizadas e, por fim, os resultados e conclusões do trabalho avaliados com objetividade e comunicados com a utilização de uma redação concisa e clara, evitando termos abstratos ou subjetivos em sua formatação.

A fase de comunicação é crítica, de modo que é necessário que se restrinjam as oportunidades de produção de versões distorcidas da realidade apurada pela auditoria, evitando uma visão de hipervalorização das desconformidades, de vieses na forma de apresentação e divulgação das questões no relatório, para que não se subverta a finalidade primária daquela avaliação na produção de melhorias para a gestão.

Os trabalhos de auditoria, mormente na área governamental, não devem incendiar arroubos de tentações de autopromoção, sob o risco de o relatório de auditoria passar a valer pelo efeito de sua versão, pelo impacto no emocional das pessoas, pelo seu aspecto semiótico.

Uma dissociação da racionalidade na auditoria governamental pode afastar a técnica, a evidência, a visão global natural da Auditoria, enfraquecer o princípio da objetividade, sustentáculo da confiabilidade da profissão. A atenção à objetividade no segmento da Auditoria Pública, em uma era de pós-verdade, recortes descontextualizados, velocidade das plataformas digitais de comunicação, vaidades e opiniões emocionais e intuitivas, próprias da pós-modernidade, pode evitar que o relato de auditoria seja recebido com uma visão distorcida.

O exercício da Auditoria Pública não deve se reverter em um dínamo de produção de desconfiança social dos aparelhos estatais, já combalidos em sua credibilidade, com generalizações e impactos alarmistas, que alimentam o medo que aprisiona e a estupefação que congela. Ao contrário, deve ser uma via de melhoria por meio do fornecimento de diagnósticos situacionais objetivos e de apresentação de propostas racionais de aprimoramento da gestão.

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*Marcos Vinícius de Azevedo Braga é auditor governamental, doutorando em políticas públicas (UFRJ) e atua na CGE/RJ.

*Rossana Guerra de Sousa é auditora governamental, doutora em ciências contábeis, conselheira do Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil) e atua no Tribunal de Justiça da Paraíba e na Universidade Federal da PB.

Das pilhas de papel à auditoria 4.0

*Por Paulo Gomes 

No anos 80 falar em auditoria de sistema significava quebra de tabu. A internet, que acaba de celebrar 30 anos, era ainda embrionária. Nessa era, as auditorias internas atuavam praticamente no ambiente operacional, focadas em análises de atividades financeiras e administrativas.

Nessa época o Instituto dos Auditores Internos do Brasil – IIA Brasil, publicou normas internacionais que continham recomendações para as melhores práticas da profissão e frisava: o auditor para executar seus trabalhos com enfoque sistêmico deveria examinar os processos de planejamento e desenvolvimento em aplicação de sistemas, o que era um enorme desafio já que a maioria dos computadores disponibilizados para os usuários não tinha disco rígido necessário para a missão, eram usados apenas na edição de textos e planilhas.

Com o passar dos anos houve uma democratização ao acesso a computadores mais complexos, mas as informações coletadas por auditores, muitas vezes, ficavam isoladas e eram perdidas por falta de backup. Linguagens de programações como Cobol, Fortran e principalmente Easytrieve Plus eram as mais usadas para extração de relatórios, porém, feitas apenas por profissionais experientes.

Apesar do surgimento de software específicos, a cultura da segurança era incipiente. Além disso, acessar banco de informações era impossível para quem atuava longe do Centro de Processamento de Dados (CPD). Era restrito a programadores, sendo ambiente hostil para auditores com formação contábil e econômica.

Os auditores começaram a perceber que não bastava auditar apenas a entrada e saída das operações, mas era preciso ter certeza que os cálculos seriam feitos corretamente e que os ambientes eram seguros para armazenar dados dos processos. A solução era investir em treinamento para avaliação de CPD, chamada de ‘auditoria de segurança física e lógica’. Verificava-se o acesso físico às instalações, estruturas elétricas e até climatização. Era rotina encontrar deficiências como a imprudência de deixar portas abertas, dando acesso a pessoas não autorizadas e senhas às aplicações compartilhadas entre os usuários.

Cada nova solução gerava curiosos desafios e problemas. Vieram as redes, e se havia facilidade de acessar determinada pasta, criava-se também excessos de arquivos nos servidores, além da facilidade de espalhar vírus, ou baixar software ilegal.

Eis que surge o ERP – Sistema Integrado de Gestão Empresarial – um novo ambiente que parecia que seria a solução para todas falhas apontadas pelas auditorias. Não foi bem assim. Ferramentas como SAP, Oracle e Microsoft Dynamics 365 vieram para dominar o mercado, com módulos específicos para atender as auditorias internas, mas as informações armazenadas nas nuvens não permitiam que auditores validassem as informações nelas contidas.

É inegável que a evolução tecnológica tenha trazido mais agilidade aos processos de auditoria, contudo, ironicamente, cresceram também o número de informações a serem checadas o que tornou o trabalho de burilar dados ainda mais técnico e complexo.

Entramos na era do Big Data e Analitics – com softwares como os famosos ACL e IDEA presentes no mundo inteiro – com a inteligência artificial batendo à porta das mais diversas áreas de auditoria de empresas públicas e privadas. Vivemos, hoje, a integração plena e ágil, que forma a chamada auditoria contínua. Tornou-se possível detectar irregularidades de forma automática, permitindo que o auditor use sua expertise para agir como um profissional capaz de passar uma visão holística da empresa, tendo amplo conhecimento dos negócios, e podendo apoiar a alta administração na tomada de decisões.

Ele não precisa conhecer com profundidade a linguagem de programação – hardware e software, mas tem que ter controle de como as informações são armazenadas e protegidas. E precisa trabalhar integrado com a área de tecnologia. Os chamados algaritmos na ‘auditoria 4.0’, nunca foram tão íntimos do auditor. Hoje, as máquinas se transformaram nos investigadores internos que levantarão possíveis fraudes e desvios de conduta. Mas caberá ao auditor monitorar esses sistemas e contribuir para o fortalecimento da ética e governança da empresa em que atua. Se assim o fizer, os robôs buscarão fraudes, mas encontrarão apenas uma empresa transparente e eficiente.

Paulo Gomes Web
Paulo Gomes é diretor-geral do IIA Brasil