ARTIGO: Auditorias auditadas

* Por Andre Marini

O ano começa com os escândalos de corrupção ainda mais latentes na mídia brasileira. Nas manchetes de todas as reportagens, surgem questionamentos naturais sobre a atuação das auditorias nos processos que afloram em organizações públicas e privadas, e torna-se cada vez mais evidente a necessidade de as empresas investirem em projetos de governança corporativa e compliance que demonstrem solidez.

A conta é lógica e muito clara: em um departamento de auditoria estruturado e embasado nas melhores práticas de mercado, as chances de fraudes são consideravelmente reduzidas. Mas quais mecanismos são capazes de mensurar a qualidade e eficácia destas áreas, mesmo daquelas que receberam significativos aportes de investimentos?

No Brasil começa a surgir uma certificação internacional que deve se tornar tendência, principalmente depois que o Banco Bradesco a conquistou, no segundo semestre do ano passado. Trata-se da QA – Quality Assessment (Avaliação da Qualidade), a mais importante certificação de um departamento de auditoria interna no mundo, concedido pelo The IIA – The Institute of Internal Auditors, e aplicado no país pelo IIA Brasil – Instituto Brasileiro de Auditoria Interna.

O Bradesco se une às gigantes Itaú Unibanco, Vivo, Oi e MRS Logística, formando uma seleta lista de companhias que obtiveram a certificação internacional no país e que agora passam a ser ainda mais respeitadas no cenário global. A iniciativa é uma validação relevante de que os departamentos de auditoria destas empresas realizam um trabalho sério de prevenção a fraudes, gerenciamento de riscos, transparência e fortalecimento da governança corporativa. Alcançá-la, tranquiliza líderes, conselheiros, acionistas e steakholders destas corporações.

Hoje é perceptível que as auditorias internas modernas transcendam o papel de apenas fiscalizar processos e documentos contábeis. Elas são capazes de gerar valor e trazer economias significativas para corporações, sejam elas privadas ou públicas.

Nos EUA, por exemplo, onde a QA é extremamente valorizada e cobiçada, ela foi a responsável por elevar o nível de rating de uma empresa, o que proporcionou a obtenção de até 0,3% de redução em tomadas de empréstimos, gerando economia de milhões. São benefícios mensuráveis que aumentam a credibilidade junto a órgãos reguladores e ao mercado.

Ao analisarmos o cenário nacional, a Lei Anticorrupção passou a exigir maior nível de controle das organizações, embora não tenha gerado ainda nenhuma condenação desde que entrou em vigor. As pesadas punições podem comprometer a saúde financeira e até encerrar atividades daqueles que cometerem ou estiverem coniventes com atos ilícitos. A necessidade de aprimorar constantemente os processos e a gestão, contra possíveis lacunas que possam causar perdas, tornou-se compulsória no mundo globalizado.

O caminho para construir uma área de auditoria interna eficaz é árduo mas factível. Para conquistar a certificação QA a empresa, independente de seu tamanho, deve estar em linha com a maioria das mais de 80 normas previstas no IPPF – sigla em inglês para Estrutura Internacional de Práticas Profissionais, espécie de ‘Manual obrigatório’ do auditor interno. O complexo documento de referência é fruto da avaliação de líderes de auditoria de todo o mundo que compõem a direção do The IIA. Em tese, uma vez bem estruturada, os riscos de surgirem gaps nos processos, serão significativamente minimizados.

Vivemos um momento de amadurecimento dos departamentos de auditoria e dos órgãos de controle do país no tocante ao combate à corrupção, mas há muito para evoluir. Gestores e empresários estão conscientes de que ambientes corporativos inseguros trazem prejuízos gigantescos à nação e diminuem o potencial de crescimento. A QA, por sua complexidade e reputação internacional, se tornará uma valiosa ferramenta que contribuirá com o fortalecimento da governança de organizações. O Brasil precisa entrar, de vez, na era da transparência e adotar a filosofia de investir em solidez e em qualidade da gestão, fatores que estão no DNA das almejadas competitividade e idoneidade.

Andre Marini 2

*Andre Marini é presidente da diretoria executiva do Instituto do IIA Brasil – Auditores Internos do Brasil. 

 

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