Ubiratan Rezende: “Disse a Colombo, tem vários governos dentro do teu governo”

O texto principal da coluna de hoje trata da desistência do professor Ubiratan Rezende em voltar para o governo estadual, após ter aceitado o convite do governador Raimundo Colombo (PSD), de quem é amigo e conselheiro, para assumir uma pasta que tratasse de questões estratégicas. Rezende diz que depois do convite, em janeiro, não recebeu mais nenhum contato por parte do governo para tratar de seu retorno. Diz que, de certa forma, se sente aliviado e faz críticas às lógica política do governo – ressaltado que isso não muda a amizade que mantém com Colombo. Rezende teve papel de destaque no início da gestão, quando ocupou a Secretaria da Fazenda por oito meses, com a missão de ser o operador de toda a gestão. Saiu dizendo que não conseguia mexer nas questões estruturais do Estado. Leia trechos da entrevista, em tópicos, que ficaram de fora da coluna de hoje:

As amarras de Colombo
Quando ele me convidou a primeira vez, eu disse que ele deveria aproveitar a ampla votação que teve para fazer um governo acima dos partidos. Ele disse que não poderia, por causa dos compromissos assumidos na campanha, mas, também, por uma questão pessoal. Ele disse que teve uma experiência marcante na primeira na primeira administração em Lages (de 1989 a 1992), quando administrou o município à revelia dos interesses locais e sofreu uma derrota política contundente. Só conseguiu retomar a carreira a duras penas e depois de muito tempo. Por isso, disse que continuaria na campanha. Eu entendi as razões, mas fiquei assustado, porque para mim era uma rota de alto risco.

A lógica do governo
O governo vai continuar a enfrentar ameaças de greve do funcionalismo, vai continuar a manter determinados privilégios, a depender de indicações políticas para compor a equipe administrativa, vai continuar a repassar recursos significativos aos demais poderes.
A narrativa do governo para os órgãos de comunicação vai continuar sendo a do otimismo permanente, em que grandes poupanças estariam sendo feitas, de que agora será lançado um modelo administrativo diferenciado. Para isso eu não vou.

A saída após oito meses de governo
Saí do governo quando ficou claro que eu não tinha a habilidade exigida pela lógica política que descrevi. Não tinha esse tipo de jogo de cintura.

O convite para voltar
Eu disse que se ele quisesse que eu acompanhasse assuntos específicos que não me envolvam nesse tipo de gestão, eu estaria à disposição. Se cogitou uma secretaria executiva. Não me interessa o cargo, eu voltaria como amigo. Ele sabe que eu discordo muitas vezes. O fato de apesar de ele saber que eu discordo em muitas coisas e mesmo assim me convidar, para mim é um sinal de grandeza de alma.

Seria uma espécie de secretaria dele. Se tivesse uma secretaria-executiva de governo, seria assim. Alguém disse que ele teria citado que eu iria para a Secretaria de Relações Internacionais, mas isso ele não falou comigo.

Acredito que o Raimundo gostaria que essa volta pudesse emblematizar uma virada de página do governo. Eu disse que não poderia fazer isso na atual lógica do governo, que não permite que se toque nas questões estruturais do Estado. Isso não é só aqui, é no Brasil todo. Eu não poderia de sã consciência voltar aí e retomar o papel que seria meu papel originário, na Secretaria da Fazenda, onde eu seria um supervisor do governo todo. E não foi possível.

Não sei se ele queria de mim outra coisa, mas nós ficamos acertados assim. E não houve mais contato algum.

Não é simplesmente uma questão burocrática. Isso também define as prioridades políticas. Eu seria exatamente aquela voz que diz que isso deveria ser revisto.

A angústia de Colombo
Ele dizia: “Sabes que o Eduardo Campos (governador de Pernambuco) tem uma sala de situação em que controla todas as ações do governo?”. Ele estava muito angustiado, porque as coisas não andavam. Aí eu disse: “Não pense que isso é de uma técnica de gestão, uso de tecnologia. Isso é resultado de uma concepção de governo. Eduardo Campos quer ser presidente da República. A partir de um estado como Pernambuco a plataforma de ressonância nacional que ele pode ter é fazer um governo tão emblemático do ponto de vista da gestão e da opinião público que de fato ele se projete com isso. A tua lógica de governo não é a de ter um governo. Tem vários governos dentro do teu governo. Cada um dos interesses que estão dentro desse governo, estão aí para defender esses interesses, não o teu governo. É muito difícil fazer a coordenação de diversos governos dentro do governo”.

O projeto de reeleição
É uma lógica de governo que pode levar à reeleição, que pode manter a base política de apoio. Ele se encaminha para uma reeleição não pode causa de um bom governo, mas pela falta de adversários. Mas também fica sujeito a ser derrotado por alguém que encarne esse sentimento de rompimento com o que está estabelecido.

Postado por Upiara Boschi, às 13:09

Fonte: Blog Moacir Pereira

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